Coronavírus: trabalho de maqueiros é marcado por emoção e afeto

Equipe de maqueiros do HCamp em Goiânia: 26 profissionais se revezam em escala para manter atividade 24 horas por dia no hospital público (Foto: Douglas Schinatto)

Personagens essenciais para o funcionamento do Hospital de Campanha, em Goiânia, profissionais prestam apoio a pacientes e estão presentes desde a internação até a alta médica .

Eles estão presentes desde o momento em que os pacientes chegam ao hospital até a saída e são imprescindíveis para a realização de diversos procedimentos hospitalares. Nesta segunda-feira (3), foi celebrado o Dia do Maqueiro e O POPULAR conversou com alguns profissionais da área que atuam no Hospital de Campanha para o Enfrentamento ao Coronavírus (HCamp), em Goiânia, que é referência para o tratamento da Covid-19. “É um trabalho puxado, mas saber que estamos ajudando as pessoas não tem preço”, diz o maqueiro Erik Peterson, de 19 anos.

Ao todo, o HCamp possui 26 maqueiros que trabalham 24 horas por dia em grupos de até oito pessoas. O supervisor de apoio operacional do HCamp, Neilton Gomes da Rocha, que trabalha diretamente com eles, afirma que apesar de o hospital estar funcionando há apenas quatro meses, a equipe já tem um entrosamento muito grande. “É um esforço coletivo para fazer o hospital funcionar. Mesmo com pouco tempo, eles já são muito amigos”, diz. De acordo com ele, quando um dos profissionais está muito cansado, outros colegas se dispõem a ajudá-lo, por exemplo. “Eu sempre digo a eles que estamos salvando vidas aqui e eles levam isso a sério”, relata.

O supervisor médico do HCamp que acompanha os maqueiros, Luciano Vitorino, diz que estes profissionais fazem muito mais do que o simples transporte de pacientes. “São eles quem recebem as pessoas quando chegam ao hospital. Eles conversam com elas e as deixam mais calmas. Estão junto aos pacientes uma grande parte do tempo e acabam sendo uma forma de apoio psicológico para eles”, conta Vitorino. Ele explica que mesmo o hospital possuindo uma equipe multidisciplinar que cuida da saúde mental do paciente, este contato diário dos maqueiros faz muita diferença. “Eles conseguem deixá-los seguros”, pontua. Na instituição, todos os maqueiros ficam paramentados o dia todo e usam todos os equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários, como capote, máscaras e escudo facial. “A saúde deles nos preocupa muito, pois são peças estratégicas dentro do nosso fluxo de atendimento”, explica o médico.

O sucesso do trabalho dos maqueiros pode ser percebido nas entrevistas de satisfação que a instituição faz com os familiares dos pacientes que foram ou que estão internados lá. “Sempre falam muito bem deles. São super elogiados”, frisa Vitorino. O médico explica ainda que sem os maqueiros, a rotina dentro de um hospital não se sustenta. “A verdade é que eles é que fazem o hospital girar. Se não forem dedicados o suficiente, a realização de um exame pode demorar muito e, consequentemente, toda uma cadeia de procedimentos vai sofrer atrasos”, esclarece o profissional. A mesma lógica se aplica, por exemplo, para as altas médicas. “Elas podem demorar muito mais se os maqueiros não estiverem engajados. Eles são peças-chave em quase todos os procedimentos realizados no hospital”, diz Vitorino.



ROTINA

A profissão de maqueiro apareceu na vida de Erik Peterson quando o HCamp foi aberto no dia 26 de março. Ele se candidatou à vaga e conseguiu o emprego. “Eu me surpreendi positivamente com a profissão. Estou muito satisfeito”, diz. De acordo com ele, apesar de a rotina ser desgastante, o trabalho é recompensador “Não é fácil. Não ficamos parados um minuto e têm alguns transportes que são mais difíceis que outros. Entretanto, o contato com as pessoas faz tudo valer a pena. É minha parte favorita de trabalhar”, enfatiza.

Para se dar bem na profissão é preciso agilidade e conhecer os corredores do hospital como a palma da mão. “Andamos pelo hospital o dia todo carregando os pacientes e temos de ser rápidos”, explica o maqueiro Lucas Lopes da Silva, de 29 anos, que atua na área há dois anos. Lucas também considera o contato com os pacientes como um dos melhores momentos que têm na rotina de trabalho. “Eu adoro esta profissão. Ter contato com o ser humano é a melhor coisa que existe” enfatiza ele.

O momento mais difícil de ser enfrentado é quando um paciente morre. “A gente acaba criando um apego com eles e quando não resistem às complicações é terrível. A pior hora do dia é ter de levá-los para o morgue”, reflete o maqueiro. Entretanto, mesmo com as perdas diárias de vidas que sucumbiram à doença, ambos os profissionais concordam que todo o desgaste físico e emocional é esquecido quando um paciente recebe alta. “Eu não consigo me segurar. Choro mesmo”, enfatiza Lucas, que já assistiu diversos pacientes deixarem a unidade recuperados e se lembra de uma história em especial com carinho. “Tinha uma paciente muito querida e no dia que ela recebeu alta o esposo dela a estava esperando com um buquê de flores na recepção. Fiz questão de levá-la até ele. Foi um momento muito bonito que jamais vou esquecer. Nestas horas, tudo vale a pena”, emociona-se.

Fonte: Jornal O Popular
https://www.opopular.com.br/noticias/cidades/coronav%C3%ADrus-trabalho-de-maqueiros-%C3%A9-marcado-por-emo%C3%A7%C3%A3o-e-afeto-1.2096555

Por Mariana Carneiro
mariana.carneiro@opopular.com.br